Samba de crioulo doido

 Samba de crioulo doido 

Hoje eu vi um ar diferente nas pessoas. Muitas delas sorrindo, conversando, bebendo com uma "pirigueti" na mão.  

O ambiente era descontraído, leve e despretensiosamente promíscuo. 

 Vi crianças da idade do meu filho caçula soltos pela rua, brincando de catar canudinhos no chão, enquanto uma das mães ou tias (sei lá! ) comia um côco verde partido ao meio. 

Ao lado uma borracharia de dois jovens irmãos com pouco tempo de inaugurada e mais a frente alguns lava a jatos  funcionando a todo vapor.  

E foi nesse ambiente que eu me encontrei hoje, sábado pela manhã.  

Confesso que me senti um "amebão" de boné, bermuda,  tênis,  protetor solar e um tal pedaço de pano que cobria meu nariz e boca e dificultava minha respiração.

 Um verdadeiro "mauricinho" para os olhos daqueles que lavavam e poliam meu carro!

Enquanto os demais proprietários se entretiam com seus celulares, sentados numa cadeira improvisada na sombra, eu prestava atenção nas coisas ao meu redor. 

Naquele ambiente não existia o tema que tanto nos aflinge e que hoje, nas horas de folga já não falamos mais com tanta frequência porque já se se tornou chato e cansativo. 

Percebi naquelas pessoas que tocar suas vidas sem medo,  receio ou protocolos de segurança é uma alternativa pra eles serem felizes.  

Consciente também que a ignorância e desinformação deles contribuem para isso, mas fazer o quê? 

 Vida que se segue...

Apesar de parecer um estrangeiro na percepção  daqueles moradores eu me sentia, de alguma forma,  inserido naquele contexto, afinal em algum momento na minha história eu tinha vivido aquela atmosfera  e conhecia um pouco daquela cultura de solidariedade, humildade,  ignorância e felicidade.  

Curioso como eu sou, encostei no jovem borracheiro que fazia a força do pneu do carro da minha esposa e perguntei:

- Amigăo,  como está a contaminação aqui na comunidade? 

- Heim? !!

- Sim... as pessoas estão adoecendo pelo Coronavirus aqui na comunidade? 

E como resposta,  ele largou :

- Patrão,  isso aí é uma lenda! 

Aí foi minha vez de responder :

- Heim?  O quê? 

- Isso mesmo patrão,  é uma lenda! 

Pasmo eu fiquei com aquela resposta, desconversei, meio sem graça e com cara de paisagem! 

Em seguida uma das crianças com sede queria beber água no tanque onde ele afunda o pneu pra verificar o furo e aí ele retrucou :

- Tá vendo ?  Vc acha que esta criança vai pegar este bicho aí? 

Aqui, patrão, quando as crianças caem e se machucam, elas mesmas se levantam, enquanto têm tantas outras que quando caem ficam chorando no chão esperando ajuda de papai e mamãe! 

Naquele momento tomei um tapa na cara com luva de pelica, desconversei fazendo cara de paisagem novamente! 

Paguei pelo serviço e voltei pra casa com aquilo na mente. Tomei meu banho, abri minha Heineken e chamei meu  dois filhos na sala pra um papo cabeça...


Autor : Maurício Fontoura

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