Parcos e Fartos
Parcos e Fartos
Hoje eu fui cortar meu cabelo num centro comercial bem perto de casa.
Chegando lá, me sentei na cadeira , tirei meu boné, olhei pelo espelho e respondi ao barbeiro:
- O senhor pode cortar meus fartos ou parcos cabelos!
Falei em tom de brincadeira e ele falou:
- Heim?
Respondi:
- Máquina dois, por favor!
Enquanto ele cortava meus cabelos eu recordava minha infância, quando meu pai saía do Derba, bairro de Valéria e me levava pra Pça Castro Alves, no prédio do Antigo Jornal A Tarde, pra cortar o nosso cabelo.
Lembro muito bem que ele fazia as suas unhas das mãos e pintava-as com esmalte incolor. Meu pai sempre foi muito vaidoso!
Enquanto ele cortava o cabelo e fazia as unhas, eu aproveitava pra passear na Pça Castro Alves.
Invariavelmente eu parava nos camelôs rastafaris e hippies.
Suas unhas eram grandes e os dentes amarelados.
Atenciosos, eles tinham uma voz arrastada e lenta, com uma pegada paz e amor!
Eles faziam colares e pulseiras com cordas de sisal trançadas e com uma placa de latão no meio.
Eu adorava e sempre meu velho comprava uma pra mim.
Saía de lá me achando!
Depois, já no final da manhã, nós íamos a pé até a Pça Municipal, subindo a Rua Chile e parávamos na Cubana pra tomarmos um Côco Espumante e saborear seus tradicionais bolinhos.
Quando não, descíamos o Elevador Lacerda e batíamos pernas no Comércio e íamos também ao Taboão pra consertar minha bola de couro.
Penso, quanto subjetivismo existia neste passeio e o quanto eu dava valor!
Aquela criança ingênua, mas ao mesmo tempo esperta e curiosa, hoje é um coroa cinquentão e o meu pai é um senhor de oitenta anos.
Hoje quem o leva pra passear sou eu ....
Os seus fartos cabelos escuros e ondulados, hoje são parcos e brancos!
E os meus.... hum... bem, também são ralos, parcos e grisalhos!
Cheguei à conclusão que as nossas lembranças remetem à maturidade e que são inversamente proporcionais à nossa cabeleira: quanto mais lembranças menos fios de cabelos nós temos!
Quando não, são fios resistentes e platinados localizados nas têmporas e que conotam experiência de vida. Há quem diga que tem até um certo charme!
Prefiro acreditar nisso.
Obrigado, meu velho!
Mauricio Fontoura
Março / 2023
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