Infância

Recordações 

Tirar férias neste momento onde tudo tá fechado e as pessoas estão reclusas é estranho e monótono.  

Mas as minhas férias posso dizer que estão movimentadas. 

Uma intensa movimentação do quarto pra sala, da sala pra cozinha.... sem contar que precisamos ter um vasto repertório para entreter dois filhos dentro de casa, um de cinco e outro de quatorze anos. Haja criatividade! 

Aproveitei as férias pra colocar a leitura em dia. Foram dois livros: Na Minha Pele, autor Lázaro Ramos, Editora Objetiva e 1808, autor Laurentino Gomes, Editora Planeta. 

O primeiro é uma autobiografia (apesar do autor não considerar que seja) que retrata a questão do racismo estrutural que existe no Brasil e todas suas consequências e as dificuldades que os negros, afrodecendentes enfrentam para conquistar seu espaço na sociedade. 

Uma narrativa bem contada e recheada de momentos engraçados e pitorescos da sua vida. 

O segundo livro retrata a fuga da família real portuguesa de Lisboa para o Brasil Colônia em 1808, pressionada por Napoleão Bonaparte que ameaçava invadir Portugal e destronar a família Bragança. 

Uma boa leitura pra quem gosta de história! 

Vou me ater ao livro "Na Minha Pele" escrito pelo excelente ator, escritor e roteirista baiano, Lázaro Ramos.

Encontrei nesta obra inúmeras passagens que permearam minha infância no Derba, periferia de Salvador, no bairro de Valéria. 

Posso dizer que o Derba era um condomínio fechado, dotado de toda infraestrutura necessária para uma boa qualidade de vida, cercado por um bolsão de miséria.

As casas deste bolsão eram simples e as ruas não possuíam saneamento básico e lá residiam boa parte dos meus amigos de infância, filhos de lavadeiras, empregadas domésticas, borracheiros, biscateiros, motoristas, pedreiros, mecânicos,  macumbeiros e tantos outros. 

Nestas ruas ou nos quintais destas casas brincávamos de gude, triângulo,  castanha, fura pé, empinávamos pipas e pegávamos minhocas para pescarmos na lagoa. 

Já à noite dentro do Derba, brincávamos de se esconder, mãe da rua, garrafão, picula no chão, pega-pega nas árvores, golzinho na ladeira de paralelepípedo e operação perturbação (OP) que consistia em jogar pedrinhas no telhado das casas ou bater na porta e sair correndo. 

Quanta alegria e ingenuidade!

Meus queridos amigos negros e afrodecentes que marcaram minha infância e que me ajudaram na minha formação como pessoa e indivíduo, merecem ser lembrados: Ninho, Firmininho, Mário, Valdir, os filhos de dona Júlia e seu Sapatão (Rui, Fernando, Edson, Marcos, Clemildo e Valdemir) , Jairinho,  Nadinho, Florinho, os filhos de Sr. Nelson, o borracheiro e tantos outros.  

Neste meio, também existiam os pivetes, delinquentes juvenis que se misturavam nas nossas brincadeiras. 

Sofri muito deboche e provocação e muitas vezes "saia na mão" com eles, mas acabava ali mesmo. 

Me chamavam de amarelo, leite Ninho ou Parmalat, tampinha, branquelo e tantos outros. Só não era pior porque eu tinha uma personalidade forte e não levava desaforo pra casa, além de ser o filho da pró Cleusa!

Minha mãe foi professora deles, como também, ajudou a alfabetizar os seus pais num curso noturno que dava na escola do Derba.

A propósito, o tempo passou e os "meus amigos " que antes foram delinquentes juvenis, se tornaram ladrões e marginais e o destino se encarregou de leva-los!

O Derba foi o nosso refúgio e paraíso particular.  

Lá existia uma lagoa cheio de Tilápias, Traíras, Acarás, Tucunarés e até Jacaré  (existia está lenda que aguçava nossa imaginação), árvores frutíferas, muita área verde, espaço ao ar livre, pássaros e animais silvestres.

Lá nós conhecíamos o cheiro das estações, andávamos descalços, pisávamos na grama molhada e com isso, passamos a conhecer a verdadeira relação de amizade entre nós, independentemente da cor da pele, da sua raça, dos seus credos, dos seus costumes ou da sua classe social. 

Algo natural e verdadeiro! 

Me mudei do paraíso antes de completar 14 anos, em 1982 e trouxe na bagagem um caminhão de boas recordações e saudades! 

Hoje, aos 51 anos, me considero um sobrevivente e um vencedor, por tudo que eu vivi e conquistei nesta vida!

Pouco, mas o suficiente pra ser um cara feliz e resolvido como homem e cidadão.  

Aos meus pais, por me darem educação, carinho e proteção e aos meus amigos, pelos ensinamentos, meu muito obrigado! 


Autor : Maurício Fontoura

Abril / 2020

Comentários

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Seu relato me trouxe ótimas recordações da nossa infância, brincadeiras, brigas, amizades, estórias de assombração e tanta outra emoções.
    Lembrar de pessoas que marcaram nossa infância. Sr. Cleto, Eriga, Cotoco, Manoel boca da noite e tantos outros.

    André Luiz

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